A plena consciência da condição humana traz vantagens de muito valor

Além de ser uma obrigação, a plena consciência da condição humana provoca três vantagens de muito valor.

Primeira: “eu me compreendo melhor”. Sou tentado pelo mal porque sou humano (Tiago diz que só Deus “não pode ser tentado pelo mal”). Estou rodeado de fraquezas, pois sou humano. Sou um, ontem, e sou outro, hoje, porque sou humano. Tenho inveja, tenho raiva, tenho fortes e insistentes desejos pecaminosos, guardo ressentimentos contra os que me machucam, penso só em mim, não amo a Deus e ao próximo como deveria e não tenho paciência porque sou humano.

Segunda: “eu me obrigo a ter misericórdia para com os outros”. A rigor, não sou melhor do que meu irmão nem ele é pior do que eu, pois ambos somos humanos. Nelson Rodrigues, o mais influente dramaturgo brasileiro, dizia: “Se todo mundo conhecesse a vida íntima de todo mundo, ninguém cumprimentaria ninguém”. O médico francês Maurice Fleury afirma o mesmo: “Depois de percorrer todos os escaninhos da alma humana, cheguei a uma conclusão: tenhamos piedade uns dos outros”. Se meu irmão tem um cisco no olho, eu tenho uma trave no meu. Se ele tem uma trave, eu tenho um cisco (Mt 7.3-5).

Terceira: “eu contrario a minha soberba”. Por que Paulo e Barnabé não permitiram que a multidão os tratasse como deuses em Listra? Não façam tal coisa — reagiram os dois missionários –, pois “nós também somos humanos como vocês” (At 14.15). Se não reconhecesse que era humano, o escritor alemão Johann Goethe jamais confessaria: “Não vejo falta cometida que eu não pudesse ter cometido”. A percepção da nossa condição é uma enorme barreira contra a soberba. Quando se passa por cima desta barreira, somos derrubados. Quem se esquece de que é humano e começa a agir como Deus é obrigado a retroagir ao ouvir a voz de Deus: “Cheio de orgulho, você diz que é um deus […], mas você é um homem e não um deus” (Ez 28.2).

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