Deficiência intelectual: inclusão ou exclusão espiritual?

 

Antes de tudo, gostaria de dizer que tenho profunda admiração por pessoas com deficiência mental, e quero também dizer que elas, com suas famílias,          são fonte de inspiração e muito aprendizado. Um dos maiores aprendizados que obtive no contato com essas pessoas foi que existe, na diversidade, uma forma de superar limitações e preconceitos.

A sociedade tem se preocupado com a inclusão do deficiente intelectual (termo mais utilizado, atualmente, para deficiência mental), nos diversos âmbitos da vida social, sendo que, aos poucos, ele tem alcançado uma melhoria progressiva na sua qualidade de vida. Temos que refletir sobre suas verdadeiras capacidades e limitações, para, então, possibilitar um melhor respeito.

Vamos entender a definição de deficiência. Deficiência mental caracteriza-se por um funcionamento intelectual inferior à média, com limitações associadas a duas ou mais das seguintes áreas de habilidade adaptativa: comunicação, auto cuidado, vida no lar, habilidades sociais, utilização da comunidade, autodireção, saúde e segurança, habilidades acadêmicas funcionais, lazer e trabalho.

Há vários fatores que podem levar o sujeito a uma deficiência intelectual, como por exemplo, alterações metabólicas; alterações cromossômicas; malformação do sistema nervoso; lesões cerebrais adquiridas e problemas relacionados a fatores socioculturais.

Não se usam mais as terminologias deficiência mental leve, moderada, severa e profunda. Atualmente, procura-se fazer uma avaliação detalhada do indivíduo e dar o apoio específico de que ele necessita. Esse apoio é importante para favorecer a independência ou interdependência, a produtividade e a participação na sociedade, com o intuito de proporcionar ao indivíduo uma vida pessoal satisfatória. O apoio é classificado dessa forma: intermitente, limitado, extenso e generalizado.

Para a família, é muito difícil receber o diagnóstico de que seu filho terá uma deficiência, pois os pais sempre idealizam o bebê. Com o nascimento de um filho que tem deficiência mental, surgem sentimentos muito comuns, de culpa, frustração, vergonha e raiva. Alguns pais sentem que erraram e que foram punidos.

Para que não aconteça uma desestruturação na família, os membros devem tomar consciência da nova realidade, e não pensar que essa criança terá, necessariamente, um efeito negativo na família. Assim, haverá crescimento no ambiente familiar, com a conscientização da responsabilidade sobre o cuidado com esta nova criança, através da dedicação e do auxílio mútuo (Assumpção & Sprovieri, 1987).

Também é fundamental a ajuda de uma equipe multidisciplinar, composta por médicos, psicólogos, professores, fisioterapeutas etc., de acordo com a necessidade. O tratamento ajudará a família a aceitar as limitações do filho e a tentar desenvolver o máximo de suas potencialidades (Lipp, 1986).

Para os que não têm, em suas famílias, pessoas com algum tipo de deficiência, é muito importante obter informações sobre a realidade dessas pessoas, para saberem como agir e não cometerem erros.

Frente a uma pessoa com deficiência, as pessoas devem agir de forma natural, tratando-a com respeito e consideração. Ao dirigir-se a uma pessoa com deficiência mental, considere a idade dela, pois, ao contrário do que muitos pensam, ela não será uma eterna criança.

Nunca ignore alguém com deficiência, julgando que não entenderá, mas trate da mesma forma que faria com outra pessoa qualquer. Ouse aproximar-se para uma eventual conversa; você poderá ter uma agradável surpresa. Considere a importância de não subestimar a inteligência de uma pessoa com deficiência intelectual. Observe que cada pessoa tem sua individualidade, e não é por ser deficiente que ela perderá a sua.

Imprescindível, também, é abrirmos mão de alguns mitos que cercam a deficiência intelectual. A pessoa com deficiência não é doente, muito menos morrerá cedo, devido a problemas de saúde. Ela pode ter algum problema de saúde como qualquer outra pessoa, mas não necessariamente isso estará relacionado à deficiência.

Também não é por ter deficiência que a pessoa será agressiva, ou muito amável. Este é um dos erros mais comuns: as pessoas tendem a generalizar comportamentos dos deficientes. Ser mais agressivo ou mais amável está relacionado com a personalidade, com as particularidades de cada indivíduo e não com deficiência.

Gostaria de compartilhar, em rápidas palavras, minha breve experiência nessa área, principalmente no que diz respeito à realização do meu trabalho de conclusão do curso de psicologia, que tratou o tema: Casamento entre pessoas com deficiência mental. Por incrível que pareça, alguns chegam a casar-se. Investiguei dois casais de pessoas com deficiência intelectual e obtive resultados muito interessantes com a pesquisa. Observei que esses casamentos podem ser duradouros e que eles podem atingir satisfação conjugal. A participação dos pais é de extrema importância, devido a sua influência na educação dos filhos para uma vida mais independente. Também percebi que, nesse tipo de relação, os cônjuges podem suprimir os déficits um do outro e viver num clima de cooperação.

O que é mais importante, na realidade desses casamentos, é a possibilidade de atingirem a inclusão em todos os âmbitos de suas vidas, principalmente na área afetiva. Muitas vezes, a sociedade luta por uma inclusão em escolas e no campo profissional, considerando apenas o déficit intelectual e esquecendo as questões emocionais, deixando de compreender o deficiente como um indivíduo capaz de ter desejos e sentimentos. A inclusão é completa quando pensamos todas as áreas da vida, ou melhor, quando trabalhamos para produzir possibilidades em todos os campos: afetivo, intelectual, etc. Não podemos privá-los de usufruir as questões afetivas, porque são características inerentes ao ser humano.

É importante proporcionar aos deficientes intelectuais uma vida social, porque através dessas atividades, as pessoas têm a possibilidade de interagir com outras pessoas. Nesses momentos, eles vão adquirindo habilidades sociais e até aprendem a se relacionar com o sexo oposto e com seus pares. Isso produz uma melhora na qualidade de vida.

Vimos, na mídia, um casal com deficiência intelectual que tentava registrar sua filhinha. Recentemente, a justiça determinou que eles poderiam registrar a menina, pois conseguiram provar serem os pais. Eles ainda lutam pela possibilidade de casar-se legalmente, pois, no nosso país, isso ainda não é permitido.

Posto que algumas dessas pessoas possuem capacidade até para se relacionar, ter filhos e sua própria família, o que dizer das questões espirituais? Estamos permitindo que elas cheguem até Deus? Estamos levando a palavra de salvação a elas também ou ainda temos uma visão limitada e preconceituosa sobre que pessoas têm o direito ou capacidade de conhecer a Cristo?

Vocês estão lembrados de Mefibosete? Sua história está em II Samuel 9. Ele era filho de Jônatas, neto do rei Saul e, aos cinco anos de idade, sua babá o deixou cair, quando fugia dos inimigos de seu pai. Ele era de uma linhagem real; porém, após adquirir essa deficiência física, devido à queda, passou a viver isolado. Ele se sentia abandonado, tinha uma visão muito negativa de si mesmo. A grande mudança na vida de Mefibosete ocorreu quando Davi, o rei de Israel, dotado de bondade, resolveu restituir tudo o que era de Mefibosete por direito e permitiu que ele participasse, juntamente com sua família, das refeições no palácio.

O amor de Davi por Mefibosete traduz o amor de Cristo por nós, mesmo sendo pecadores. Ele usa de misericórdia e graça para conosco. Como conhecedores desse maravilhoso amor, somos encorajados por Jesus a demonstrarmos grande amor às pessoas a nossa volta, independentemente de suas falhas, deficiências e limitações.

 

Bibliografia

Assumpção Júnior, F.B. e Sprovieri, M.H.S. Sexualidade e deficiência mental. São Paulo: 1987.

Lipp, M.N. Sexo para deficientes mentais: sexo e excepcional dependente e não dependente. 3 ed. São Paulo: Cortez, 1986.

_________Valentina, Após dois meses, bebê de mãe com Síndrome de Down e pai com atraso mental é registrado. Disponível em: http://oglobo.globo.com/sp/mat/2008/06/13/apos_2_meses_bebe_de_mae_com_sindrome_de_down_pai_com_atraso_mental_registrado-546787643.asp Acesso em: 18 de jun. 2008.

_________Classificação de deficiência mental – Evolução do conceito na história. Disponível em: http://www.entreamigos.com.br/textos/defmenta/classificacaoDeficienciaMental.pdf Acesso em: 18 de jun. 2008.

Extraído Revista O Clarim;

Autora: Virginia Aparecida Ronchete David é  Psicóloga

 

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