Sobre a sexualidade cristã

Wolfhart Pannenberg

 

Sobre o amor — Pode o amor ser pecaminoso? Toda tradição doutrinária cristã ensina que há uma coisa chamada amor invertido, pervertido. Os seres humanos são criados para o amor como criaturas de Deus, que é amor. Ainda assim, essa ordenação divina é corrompida sempre que as pessoas se afastam de Deus ou amam outras coisas mais do que a Deus.

Sobre o casamento — A união indissolúvel do casamento é o alvo da nossa criação como seres sexuais (Mc 10.2-9). Visto que, quanto a esse princípio, a Bíblia não é temporal, as palavras de Jesus são o critério e o fundamento para todo pronunciamento cristão sobre a sexualidade, não somente para o casamento, mas também para nossa identidade como seres sexuais. De acordo com o ensinamento de Jesus, a sexualidade humana como macho e fêmea tem como alvo a união indissolúvel do casamento.

Sobre a homossexualidade — As determinações bíblicas quanto à prática homossexual são claras e não dão margem à ambiguidade quanto à rejeição de tal prática. Todas as afirmações sobre esse assunto concordam mutuamente, sem exceções […]. Sobre esse assunto, o judaísmo sempre se viu como distinto de outras nações. Essa mesma distinção continuou a determinar as afirmações do Novo Testamento sobre a homossexualidade, em contraste à cultura helenista, que não via problema algum com as relações homossexuais. Em Romanos, Paulo inclui o comportamento homossexual entre as consequências de se afastar de Deus (Rm 1.27). Em 1 Coríntios, a prática homossexual está, junto com a fornicação, o adultério, a idolatria, a avareza, a bebedeira, o furto e o roubo, entre os comportamentos que impedem a entrada no reino de Deus (1Co 6.9-10). O Novo Testamento não contém nenhuma passagem que possa contrabalançar essas afirmações paulinas. Assim, o testemunho bíblico inclui a prática do homossexualismo, sem exceção, entre os tipos de comportamento que expressam notavelmente a humanidade afastada de Deus. Esse resultado exegético coloca amarras estreitas na visão sobre a homossexualidade que uma igreja sob a autoridade do Espírito Santo pode ter.

Sobre o papel da igreja — A igreja tem de conviver com o fato de que, na área sexual, assim como em outras áreas, desvios de norma não são excepcionais, mas, antes, comuns e difundidos. A igreja deve agir com tolerância e compreensão para com todos os envolvidos, mas também deve levá-los ao arrependimento. Ela não pode abandonar a distinção entre a norma e o comportamento que se desvia da norma. Aqui estão os limites de uma igreja cristã que está sujeita à autoridade das Escrituras. Aqueles que argumentam que a igreja deve mudar essa norma devem estar cientes de que estão promovendo divisões: se uma igreja se deixar levar a ponto de não considerar a atividade homossexual como um desvio da norma bíblica e reconhecer as uniões homossexuais como uma parceria possível de amor equivalente ao casamento, tal igreja não estaria sobre bases bíblicas, mas contra o testemunho inequívoco das Escrituras.

 

Traduzido por Vitor Grando da Silva Pereira.

 

Wolfhart Pannenberg, teólogo protestante alemão nascido na Polônia, é professor de teologia sistemática da Universidade de Munique e diretor do Instituto de Teologia Ecumênica. É autor de “Teologia Sistemática” (Paulus).

Fonte: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/325/sobre-a-sexualidade-crista

 

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